Play Strindberg

Autor: Friedrich Dürrenmatt
Encenação: João de Melo Alvim 
Estreia: 22 de Maio 

 

 

Sinopse

Os protagonistas são um casal, Alice e Edgar, que vive isolada numa ilha e à margem da única povoação. Ambos arrastam o fracasso da sua existência: ele um desactualizado e nunca promovido escritor militar, ela uma actriz que fala de uma carreira que nunca teve reconhecimento por modesto que fosse. Vivem juntos há duas décadas, já não têm nada para dizer um ao outro, estão mortos dentro da sua própria casa que mais parece uma prisão ou um mausoléu, e vivem um inclemente combate conjugal feito de ressentimentos, sacarmos e ironias ácidas.

 Um dia recebem a visita de um velho conhecido, Kurt, e a sua presença, por momentos, parece uma bênção caída do céu. A conversa é possível, pelo menos outra conversa que não a circular e recriminatória de todos os dias. Cada um dos elementos do casal encontra um interlocutor para desabafar sobre o inferno que vive.

No entanto este inferno arrasta igualmente o recém-chegado que se vê envolvido, contra a sua vontade, naquele vendaval de misérias e recriminações; para não sucumbir ele afasta-se numa sequência de casos dignos de um policial negro, com tanto de mistério, como de comédia sobre a tragédia.

Na ilha, na casa ao largo da povoação, a vida continuará o seu curso normal, triste e claustrofóbico.

 

 

Sobre o Espectáculo

Inicialmente, este espectáculo não estava previsto no primeiro “Roteiro da Intemporalidade” que a Companhia de Teatro de Sintra está a percorrer desde 2005, e que este ano termina. Os autores escolhidos foram Strindberg, Ibsen e Tchekov sendo que as abordagens se desenvolveram entre o chamado “clássico” e o “experimentalismo”.

A inclusão de Friedrich Dürenmatt, surge por associação óbvia a um texto de Strindberg (“Dança Macabra” ou “Dança da Morte”, conforme os tradutores). Procuramos assim um outro olhar sobre as fixações na obra do mestre sueco, e encontramos também uma oportunidade de dar a conhecer um texto poucas vezes representado no nosso país – salvo incorrecção, a primeira, e última vez, aconteceu em 1990, numa produção da Seiva Trupe.

Neste “Play” quisemos entrar no jogo que a peça propõe – desde logo na própria divisão do textos em assaltos, a remeter para um jogo de boxe onde, nas didascálias, não falta o gongo – mas criando as nossa próprias regras. Ou seja: aceitamos o desafio de Dürenmatt  e, play Strindberg, mas também play Dürenmatt.

No texto que Dürenmatt  escreveu sobre a sua peça o autor diz que transformou “uma peça histriónica (…)numa peça para histriões” e que o actor “não se vê mais obrigado a apresentar estudos demoníacos da alma, tornando-se possível a apresentação de um texto conciso e enxuto”.

Aproveitamos a deixa e deixamos cair os histriões de Dürenmat, partimos para o mais longe possível da tentação por estados de alma e aceitamos, para desenvolver, o “conciso” e o “enxuto” e pegamos num dos trunfos referidos durante um dos jogos de cartas da peça: espadas.

Espadas no sentido metálico, frio, despojado que propusemos para a representação. Sem histriões, sem estados de alma, sem paletas naturalistas, sem envolvimento físico. Ou apenas – e este apenas foi tanto! -o envolvimento físico do actor necessário para mediar a palavra, da fixidez da página, para a mutabilidade nos olhos e na cabeça do ouvinte/espectador. Uma representação em que o actor não se envolva, sublinhando as tensões do texto, antes deixando que o ritmo criado em palco, retrace este estranho e perturbador jogo trágico/cómico, herdado de Strindberg, refundido por Dürenmatt.

João de Mello Alvim

 

Ficha do Espectáculo

Autor: Friedrich Dürrenmatt; Fixação do texto e encenação: João de Mello Alvim; Interpretação: Sofia Borges; Nuno Correia Pinto; Pedro Cardoso; Cenografia e figurinos: António Casimiro; Interpretação ao piano (gravação) e Orientação Vocal: Maestro João Paulo Santos; Mestra Costureira: Adélia Canelas; Direcção de Produção: Nuno Correia Pinto; Direcção Técnica: André Rabaça; Assistência Geral: Carla Dias; Desenho de Luz: André Rabaça; Montagem: André Rabaça e Pedro Tomé; Secretariado de Produção: Cristina Costa; Operação de Luz e Som: André Rabaça