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Alexandra Diogo_foto de ensaio © André Rabaça
SOBRE O
TEXTO
(...)so singe
die Liebenden(...)
(...)
Jene, du neidest sie fast, Verlassen, die du
so viel liebender fandst als die Gestillen. Beginn'
immer von neuem die nie zu erreichende Preisung.
Rilke, Duineser Elegien
(...) canta as amantes (...)
(...)
Canta aquelas — quase as invejas! — abandonadas que tu
achavas tanto mais amorosas que as satisfeitas. Recomeça
sempre de novo o inacessível louvor.
Elegias de Duíno (trad. de Paulo Quintela)
O que terá jeito, ao longo de
quase sessenta anos, a fortuna deste monólogo de pouco mais de uma hora,
desde a sua estreia atribulada na Comédie-Française, em 1930, pela
actriz Berthe Bovy, até tornar-se, em 1986, o centro simbólico do filme
A Lei do Desejo de Pedro Almodóvar, há pouco exibido entre nós?
Algumas das maiores actrizes do século o interpretaram, de Ingrid
Bergman a Liv Ullman, de Simone Signoret a Anna Magnani (filme de
Roberto Rossellini, de 1947). E em Lisboa, no Teatro de São Carlos,
pudemos assistir às apresentações, separadas por vários anos, da ópera
de Francis Poulenc — trabalhos memoráveis de Denise Duval (pouco depois
da estreia parisiense, em 1959) e Evelyn Lear.
A tradução para português que nesta edição se publica foi encomendada a
Carlos de Oliveira por Maria Barroso e utilizada no espectáculo que, nos
meados da década de 60, esta actriz, cuja carreira foi, como se sabe,
destruída pelo regime salazarista, fugazmente (dada a rápida proibição)
apresentou no Porto e em Lisboa (Teatro São Luís). No início dos anos
70, Eunice Muñoz usou a mesma tradução numa tournée a África e é agora a
vez de Isabel de Castro retomar o texto de Jean Cocleau-Carlos de
Oliveira, numa encenação de Rogério de Carvalho, produzida pelo Grupo
Teatro Hoje (Teatro da Graça).
Penso que A Voz Humana deve o sucesso à eficácia da sua construção, que
faz funcionar dramaticamente o que, à partida, não passaria do
prolongado lamento-despedida de uma mulher abandonada pelo amante. Neal
Oxenhandler afirma que A Voz Humana «mostra que Cocteau foi capaz de
criar uma personagem ferida nas suas emoções mais profundas, desta vez
não um poeta, mas uma mulher vulgar falando angustiadamente ao telefone
com o amante. (...) A Voz Humana foi um dos primeiros de vários
movimentos que Cocteau faria na direcção do naturalismo. Embora a
fantasia fosse o seu terreno privilegiado, ele conseguiu trabalhar com
êxito no âmbito muito mais espartilhado do estilo naturalista, em que
uma sala é apenas uma sala e uma voz ê apenas uma voz.» ‘
É certo que o tema da amante abandonada transporta, em si próprio,
acentuadas virtualidades poético-dramáticas, a que não será talvez
estranha a aura rilkeana que lhe advém do famoso elogio de Gaspara
Stampa, na primeira das Elegias de Duíno. Mas o que, acima de tudo, faz
de A Voz Humana um tour de force fascinante é a introdução do factor
telefone na estrutura dramática, dentro da qual ele existe
simultaneamente como catalisador de tensões, produtor de personagens e
símbolo; mais ainda, é ele que determina, como adiante veremos, a
mudança decisiva do curso do monólogo, o verdadeiro turning point da
peça. Acresce que o jacto de se tratar de um instrumento relativamente
primitivo, com as inerentes deficiências de funcionamento, lhe
intensifica o papel disruptivo, pelo que, de um ponto de vista teatral,
só se ganhará em manter a acção na época em que foi situada por Cocteau,
um tempo que não poderia, obviamente, ser o dos telefones automáticos,
livres da interferência de telefonistas e, em princípio, da presença de
estranhos nas linhas.
A Voz Humana inicia-se, precisamente, com um problema de linhas
cruzadas, que provoca na personagem um estado de ansiedade suplementar:
«(...) está lá, menina? Há uma chamada para aqui, mas não posso atender.
Linhas cruzadas, meio mundo a falar. Diga a essa senhora que desligue
(Desliga. Tornam a chamar.) Está? és tu? és tu?............. Sim…..
Ouço-te mal............... ao longe, muito longe...» A ligação
telefónica é cortada e restabelecida várias vezes, ao longo da peça, as
vozes tornam-se, por momentos, indistintas («Está?....... Está
lá?......... E assim, não ouves? Só se eu gritar…….. E assim?.......
Ainda não?..... Tem graça, porque tu é como se falasses aqui no
quarto………... Está?.............. Está lá?.....
está?..................................................................
Agora sou eu que não distingo a tua voz...», a ameaça de interrupção é
constante («É mesmo estranho que nos deixem conversar tanto tempo.
Geralmente cortam ao fim de três minutos e depois dão-nos um número
errado...»), os efeitos emocionais causados pelos cortes são intensos,
radicais: «Ah! A tua voz, de novo. Muito nítida, amor. Sim, foi
desagradável. Como se tivéssemos morrido. Ouvir e não poder falar...».
Uma boa parte do discurso da protagonista de A Voz Humana destina-se a,
como diz Roman Jakobson, «verificar se o circuito funciona»; tem,
portanto, uma função fálica: «Não corte a ligação, menina»; «Se
desligarem, pede logo outra chamada»; «Não deixes cortar a ligação»;
«Não, não desligue»; «Por que é que desligaram?»; «O que tem a fazer é
desligar»; «Cortaram outra vez»; «Claro que é preciso desligar»;
«Desliga! Desliga! Desliga depressa». Exemplos, entre muitos outros
possíveis, a começar pelo «Está, está lá, está?» inicial e pelos
inúmeros «Está?» e «Está lá?» que pontuam toda a peça e constituem como
que a marca da sua identidade.
O facto de toda a fala ser produzida ao telefone altera substancialmente
a natureza monológica do texto e redimensiona-o: outros espaços se
desdobram, outras personagens impõem a sua presença e ganham peso
dramático. Como já referi, o comportamento da protagonista sofre, por
sua vez, uma alteração decisiva, a partir do momento em que, ao ligar
para casa do interlocutor, no seguimento de uma das várias interrupções
da conversa, se apercebe de que ele lhe tem estado a mentir e não se
encontra onde ela o imaginava. Esta informação, adquirida através do
telefone, está na origem do desmonoramento da ficção que, por orgulho,
também ela estivera construindo acerca de si própria, leva-a, numa
atitude de desistência que caracteriza a segunda parte do monólogo, a
assumir a sua mentira, sem dar, todavia, indícios de que não ignora a
mentira do interlocutor — e a tensão que daí resulta é mais um forte
elemento estruturante do drama.
Após o momento da viragem, a ansiedade dá lugar ao desespero, o discurso
torna-se totalmente desamparado e mais fluido. Deixa quase de ser
necessário recorrer ao truque das interrupções, tão presente nos
segmentos iniciais. A tragédia é revelada em toda a sua extensão. Como
escreve Stephen Harvey, referindo-se a Lês Parents Terribles e La Voix
Humaine, «Cocteau torna a fraqueza e o tormento paradoxalmente vitais —
estas personagens expendem tanta energia e eloquência no seu caminho
para o esquecimento.» 2
O telefone faz então a sua entrada no texto como elemento
contraditoriamente simbólico, quer dos derradeiros e precários momentos
da relação («Claro, fui ridícula, mas se levei o telefone para a cama é
porque ele, apesar de tudo, nos une ainda...»), quer da separação, que é
já uma realidade, como realidade são os sonhos da protagonista:
«Sonhei a própria realidade. Acordei sobressaltada e alegre porque se
tratava dum sonho, mas quando vi que era verdade, que estava só, que não
tinha a cabeça apoiada ao teu pescoço, ao teu ombro, e as minhas pernas
entre as tuas, senti que não podia, que não podia mais viver...» Carlos
de Oliveira compreendeu perfeitamente o papel fundamental que a
introdução do telefone desempenha na estrutura dramática da peça, ao
traduzir «Mais avec cet appareil, cê qui est fini est fini...» por «Mas
entre nós, separados por este telefone, o que acabou, acabou...»
A Voz Humana, apupada em 1930 («Jean está encantado. Teve o seu
escândalo», escreve Valentine Hugo ao marido, a propósito da estreia),
tornou-se uma peça mítica, como o seu autor está hoje bem mais vivo do
que muitos dos que persistentemente o insultaram, nomeadamente André
Breton e a sua troupe, que, em nome de um moralismo repugnante, não
hesitaram em persegui-lo pela sua assumida homossexualidade. «Une
charogne que nous parviendrons à abattre» lhe chamava o n.º 6 da «Révolution
surréaliste»; obviamente, não conseguiram.
Gastão cruz
in, “A Voz Humana”, Lisboa, edições Assírio & Alvim, col. Gato
Maltês,1989
(1) «The Theater of Jean Cocteau», in Jean Cocteau and the French Scene,
Abbeville Press, New York, 1984.
(2) «The mask in the mirror: the movies of Jean Cocteau», ibid.
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A LIÇÃO
DE COCTEAU
Foi uma crónica de Jacques Lemarchand, no «Figaro Litteraire», que me
despertou o apetite por um estudo de Pierre Dubourg sobre a «Dramaturgie
de Jean Cocteau», com uma introdução de Thierry Maulnier. A poucas
páginas, afinal, se reduz o meu interesse pelo livro — precisamente, as
que incluem a introdução e o primeiro capítulo, na parte em que o autor
se ocupa de «Poesia e Teatro». De resto, Dubourg entrega-se à desvairada
e incondicional exaltação da obra de Cocteau.
Não se trata, porém, agora, de opor juízos críticos aos do autor, nem
de expor a minha concordância ou discordância com o significado da
dramaturgia de Cocteau. Julgo, no entanto, que há uma lição relevante a
extrair da análise da «Dramaturgie de Jean Cocteau», na medida em que
ela define, no espaço e no tempo, a coluna vertebral do autor da
«Máquina Infernal», como pensamento, como evolução, como coerência.
Maulnier esclarece que «a missão dos escritores não é proporem-se à
aprovação nem à admiração. A sua missão não é de ensinar. A sua missão é
despertar. A sentinela não grita para que se pense: a sentinela tem uma
bela voz, mas para anunciar alguma coisa. A sentinela viu alguém, que
chega». E Dubourg explica: «O desconhecido que nos cerca, as forças que
nos conduzem irresistivelmente, o enigma ou a ilusão do livre arbítrio
-— eis os grandes temas de Jean Cocteau, o poeta que abre as portas na
noite».
Cocteau estreou-se com «Parade», um poema dramático mudo, que transpõe a
vida para a cena, através do Teatro puro: pantomima, dança, música,
silêncio e ruídos, cenário, tudo com o objectivo de exprimir,
significar, sugerir ao máximo. «O poeta encontra a essência do próprio
Teatro, o espírito da poesia que ultrapassa a realidade e que é o
reflexo de uma verdade profunda». Trata-se de uma metamorfose da
gesticulação quotidiana, elevada ao estilo do «ballet».
Depois, em «Les mariés de Ia Tour Eiffel», dá a cena «a honra da
linguagem falada» — a palavra em toda a sua eficiência teatral, por
intermédio da poesia. A poesia comanda toda a obra do dramaturgo e o
papel do poeta é descobrir a essência e a significação profunda do que
nos cerca; ele desvenda-nos, bruscamente, apresentando-as sob um ângulo
desconhecido, as mínimas coisas que o hábito nos impede de ver.
Será, porventura, na essência e na significação profunda do que nos
rodeia, que se situa a nossa maior ou menor impermeabilidade a uma parte
da obra de Cocteau, o que não nos impede de o admirarmos pelo que nos
ensina como dramaturgo coerente, que não se abandona ao acaso dos
circunstâncias e dos interesses para escrever, produzindo uma obra
incaracterística, como é o caso da maioria dos escritores portugueses,
que tentam, sabe Deus porquê, a literatura dramática. É necessário
estar, como Cocteau, possuído desse demónio do Teatro, para que o
dramaturgo, em vez de se deixar conduzir pela mão insatisfeita e
impudente desse fantasma ridículo que é o Teatro em Portugal,
construindo uma obra inconsequente e destituída de sentido, consiga
definir um objectivo (qualquer que ele seja, não importa) e dirigir-se
decididamente para ele.
De «Parade» a «L'Aigle a deux têtes» e «Bachus», a obra de Cocteau
estrutura-se com um sentido lógico inatacável, quer na evolução de uma
técnica de construção dramática, quer em obediência a um princípio de
poesia em acção, quer ainda como pensamento tempestuosamente
desencadeado para atingir um fim, uma significação. Cocteau parte da
sublimação do mimo, com «Parade» e «Le jeune homme et Ia mort», o
mimodrama que vimos em Lisboa interpretado pelos «Ballets des
Champs-Elysées», para a palavra sublimada pela selecção do essencial e
do útil, com o monodrama de «La voix humaine» ou «Les monstres sacrés»,
definindo uma evolução lógica de um pensamento em acção. Porque, como
luminosamente esclarece Scarlatti, «casando a libertação democrática e
a aristocracia do pensamento a Humanidade poderá conceber a beleza
inédita. De contrário, se lhe faltar o talento para se modelar a si
própria, todo o seu labor de muitos séculos ruirá — como se, dementada,
aniquilasse, em chamas, o templo do seu espírito». Mas quem se importa
com estas ninharias?
É Gordon Craig quem afirma — e, com ele, todos os seus discípulos — que
uma peça só pode ser conscienciosamente encenada através do estudo de
toda a obra do seu autor porque, necessariamente, ela é apenas um
elemento de um conjunto dramático cujas características fundamentais o
encenador deve descobrir e evidenciar. Craig parte, portanto, do
princípio — justo — de que a dramaturgia, quando não se trata de mera
aventura, de esporádico acidente, de puro diletantismo literário, de
manifestação de baixos, instintos, de exploração de interesses
confessáveis e inconfessáveis, tem de definir um pensamento em acção.
(…)
Júnior, Redondo, “Pano de Ferro”,Lisboa, editorial Século,1955
topo
FICHA DO ESPECTÁCULO
""A
Voz Humana" de Jean Cocteau / 60ª produção da Compª
Teatro de Sintra
Encenação:
João de Mello Alvim; Direcção de Produção: Nuno Correia Pinto;
Dramaturgia: Manuel Sanches; Actores: Alexandra Diogo;
Cenografia: António Casimiro; Figurinos: Graça Rodrigues;
Mestra Costureira: Maria Augusta Rodrigues; Direcção de Montagem
e Design Gráfico: André Rabaça; Secretária de Direcção e
Produção: Cristina Costa; Assistente de Produção: Nuno Machado;
Assistente do Encenador: João Mais; Montagem: André Rabaça,
Pedro Tomé e Nuno Machado; Vídeo: Miguel Godinho e Vasco Rosa
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PREÇÁRIO
10€ Preço Normal
7,50€ < 25 anos e
65 anos > (inclusivé)
5€ Grupos de 7 ou mais
15€ Jantar com
espectáculo ( info. em breve)
topo
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Ficha do espectáculo
autor_ Dario Fo
Adaptação_
Graça Afonso e Manuel Sanches
Interpretação _ Alexandra Sargento / Vera Fontes / Pedro
Cardoso / Tiago Matias / Nuno Correia Pinto / Manuel Vicente
Encenação_
João de Mello Alvim / Direcção de Produção _ Nuno Correia
Pinto
Assistente
do Encenador _ João Mais
Design
Gráfico e Fotografia _ André Rabaça
Direcção
Técnica _ André Rabaça / Técnico Auxiliar _ Pedro Tomé
/Assistente Produção _ Nuno Machado / Secretária de Direcção e
Produção _ Cristina Costa
Frente de
Sala _ Daniela Vilela / Bilheteira _ Paula Malhado /
Limpeza _ Anabela Alface
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pr
Preçário »
Bilhete
individual 10€
Duas a três
pessoas 7,50€
Mais de três
pessoas 5 €
As
reservas
de bilhetes e convites, devem ser feitas com 48h de antecedência; o
levantamento dos bilhetes deve ser feito, no máximo, 20 minutos antes do
início do espectáculo, sendo que, no caso de convite, o mesmo deve ser
apresentado contra a entrega do bilhete.
O espectáculo,
com a excepção do dia de estreia, começa, impreterivelmente, 5 minutos
depois da hora marcada, não sendo permitida a entrada durante a
representação.
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